Do que precisamos para viver?

A famosa ironia de Sócrates (469 a.C. a 399 a.C) se manifesta em uma história que contam a seu respeito, na qual após circular pelo mercado de Atenas ele teria dito: “Vejam quantas coisas um ateniense precisa para viver!”. Em outras palavras, há quase 2.500 anos, um filósofo criticava o valor excessivo que era dado pelos seus contemporâneos às coisas supérfluas, ou seja, ao consumismo.

O que Sócrates diria de nós, hoje, ao visitar os shopping centers, as feiras e lojas e ver a agressividade das campanhas de marketing na mídia em geral?

As coisas básicas que alguém precisa para viver são aquelas que satisfazem as suas necessidades mais primárias: respirar, comer, beber, vestir-se para se proteger do frio e do calor, abrigo para se proteger das intempéries. Tudo o mais é supérfluo. Mas, qual é a relevância disso para nós?

Não é novidade que a vida em nosso planeta está ameaçada tanto pela iminência de guerras quanto pela escassez de recursos não renováveis como decorrência do uso indiscriminado e do desperdício de matérias primas em geral. Também não é novidade que há muita gente passando fome e sem ter o mínimo necessário para a satisfação de suas necessidades básicas.

O fato é que, embora Sócrates tenha se manifestado criticamente sobre o consumismo de seu povo, passados mais de dois milênios, nos deparamos com uma situação muito mais intrigante e assustadora do que a que provocou a indignação do filósofo.

A ironia socrática não me tem saído da cabeça e, após ver o vídeo “A história das coisas” (disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw), não posso deixar de me perguntar: do que, mesmo, precisamos para viver? Sempre chego à conclusão de que estamos, cada vez mais, dependentes de coisas que apenas nos distraem e nos mantém ocupados, mas que não essenciais para nossa vida.

Dependência significa falta de liberdade. Se não somos capazes de deixar de lado as quinquilharias que a propaganda nos faz comprar, nem deixar de adquirir algo que não precisamos, estamos dependentes e, portanto, presos a um círculo vicioso que não nos deixa pensar direito.

A maioria de nós tem muito mais do que o necessário para viver, mas está se esquecendo de algo igualmente básico: a solidariedade e a cooperação são elementos importantes para que possamos sobreviver como espécie. Na teoria da evolução, nenhum indivíduo sobreviveu sozinho, mas apenas em cooperação com os seus pares. Do mesmo modo, devemos nos unir para transformar a nossa realidade em um ambiente que não seja hostil à vida de qualquer ser humano. E como somos dotados de inteligência e capacidade para isso, também devemos proteger as demais espécies da extinção.

A atual dinâmica social vigente está nos empurrando, cada vez mais, para sermos indivíduos isolados e egoístas, incapazes de nos relacionarmos de maneira inteligente e produtiva (não no sentido econômico, mas no sentido de criar condições propícias para uma sociedade em que haja solidariedade e colaboração).

Solidariedade e colaboração somente são possíveis quando as pessoas são livres e, onde há liberdade, há condições para as pessoas serem solidárias e colaborativas. Trata-se de um círculo virtuoso, portanto. Se, ao contrário, permanecermos dependentes de coisas que não nos deixam pensar, ficaremos cada vez mais distantes de um mundo em que todos merecem viver porque, a rigor, a vida foi dada em igualdade de condições para todos.

Se nos perguntarmos, sempre, do que precisamos para viver, teremos a oportunidade de rever nossos conceitos e nossas escolhas, o que será importante para sermos mais livres.

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5 respostas para Do que precisamos para viver?

  1. Priscyla disse:

    Excelente texto, análise minuciosa e peculiar. Obrigada pela oportunidade dessa leitura justamente hj que há alguns anos o mundo era premiado com o nascimento do educador Makiguti que tanto criou a educação de valores humanos, através da pedagogia da felicidade que educa para vivermos em comunidade, dialogando e acima de tudo respeitando o nosso próximo, pois assim podemos viver livres, sermos solidários e colaborando para um lugar melhor e digno para todos.

  2. Priscyla, eu acredito na solidariedade e na colaboração entre as pessoas como caminho para vivermos melhor. A competição só nos torna mais individualistas e egoístas. Que bom saber que há mais gente pensando em vida em comunidade!

  3. Priscyla disse:

    E como tem! Inclusive uma organização com esse propósito de levar paz, cultura e educação, preservando as caracteristicas locais, incentivando a população a viver em comunidade, se preocupando com o bem estar um do outro. Essa organização está presente em mais de 190 países e é filiada a ONU. Se tiver interesse confere o site http://www.bsgi.org. Eu publiquei seu texto no face e ele foi compartilhado pelos brasileiros q moram em Londres e é da organização e muita gente curtiu seu texto, pq a legião que tem esse pensamento está crescendo e precisa se encontrar de alguma forma, senao estaremos perdidos. E como vc bem colocou no texto é questão de inteligência olhar pro outro como contribuinte e assim garantimos nossa espécie. Essa é a ideia que precisa de forças para esse século. Parabens!!!

    • Obrigado por suas observações, Priscyla. Eu me sinto satisfeito em saber que o mundo ainda em jeito. Basta querermos. Entre tantas boas idéias, há um movimento proposto pelo físico Augusto de Franco para o fomento das redes sociais. Isso que você descreve é uma rede social, na acepção defendida por Franco. Vale a pena conferir. Visite o site da Escola de Redes, se você ainda não o fez!

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