Precisamos de gentileza para viver

Um rápido olhar pelas manchetes dos noticiários nos leva a concluir que falta gentileza no mundo. Se houvesse gentileza, aquele casal de Alphaville não teria sido morto brutalmente da forma como foi; não aconteceria bullying; não haveria preconceito nem intolerância de nenhum tipo, entre outras coisas.

Leonardo Boff, em dois artigos publicados em 2004 – “Espírito de gentileza” (disponível em: http://www.leonardoboff.com/site/vista/2004/abril30.htm) e “O profeta gentileza” (disponível em: http://www.leonardoboff.com/site/vista/2004/maio07.htm) – apresenta uma análise bem interessante sobre como a gentileza, ao lado da racionalidade típica de nossos tempos, fundou o princípio civilizatório, desde a Modernidade, e se apresenta como imperativo para a humanização das “relações demasiadamente funcionais e marcadas pela violência”.

Se respondermos sinceramente à pergunta “Do que precisamos para viver?”, chegaremos a respostas variadas e criaremos um elenco de coisas que muito bem podem ser enquadradas na já conhecida classificação de essenciais, necessárias e importantes. O que não se enquadrar nessas três categorias, podemos considera como supérfluo e dispensável, ou seja, não precisamos disso para viver. É o que eu vivo tentando dizer aos meus filhos sobre o videogame e jogos on line.

Pois bem, eu acho que essencial mesmo é só aquilo sem o qual não viveríamos em hipótese alguma: respirar, comer, beber e atender às necessidades fisiológicas ligadas ao funcionamento básico de nosso corpo biológico.

O restante das coisas podemos considerar necessárias ou importantes. Eu consideraria que a gentileza está no rol das coisas importantes. Isso porque ela diz respeito ao aspecto social da nossa vida. Ela é essencial em um certo sentido, se pensarmos que a vida social, para existir, precisa de colaboração entre as pessoas. Mas, numa perspectiva individual, ela está no terceiro grau das coisas que precisamos para viver.

Mas, a verdade é que ninguém vive sozinho ou isoladamente. Ou, dito de outra maneira, ninguém encontra felicidade em si mesmo e por si mesmo, mas apenas em relação com os outros. É difícil imaginar que alguém encontre felicidade maltratando as pessoas ou desejando-lhes o mal ou, ainda, regozijando-se com o sofrimento alheio. A felicidade, normalmente, está na alteridade. Em resumo, a felicidade é algo que se encontra em uma vivência da diversidade de indivíduos que têm um quere e um sentir diferentes, mas que se complementam uns aos outros. É nesse contexto que a gentileza ganha importância.

Na internet, é possível encontrar muitos escritos fazendo referência ao espírito de gentileza e ao espírito de geometria, como conceitos apresentados por Blaise Pascal (1623-1662), também citado por Boff, que, de uma maneira mais simplificada, podemos entender como a razão e o coração. A necessidade de articulação e equilíbrio entre esses dois princípios representa, sem dúvida, a harmonia de que este mundo precisa para se endireitar.

O personagem que Leonardo Boff cita em seus textos passou a viver da gentileza, com gentileza e para a gentileza. Foi um verdadeiro profeta de nossos tempos. Precisamos de gentileza para cuidarmos uns dos outros e cuidarmos de nosso planeta, de nossa sociedade, de nossa família.

A gentileza bem poderia estar presente no rol de atributos de nossos políticos para que, em vez de buscarem benefícios para si próprios, cuidassem do bem de todos, pois, para isso foram eleitos.

Gentileza pressupõe amor e amor é doação. Quem está apto a amar, está apto a ser gentil.

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4 respostas para Precisamos de gentileza para viver

  1. José Luiz Tatagiba Lamas disse:

    Tudo a ver, Sergio, adorei. Quero compartilhar uma história sobre isso. Há cerca de 30 anos, quando eu morava em São José do Rio Preto, tinha uma situação financeira bem apertada (melhorou, graças a Deus). Um dia, um médico lá do hospital, chamado Ivan, me aborda do nada e diz: “Olha, eu gostaria de te dizer que estou à sua disposição para o que precisar, inclusive financeiramente. Estou falando isso porque sei que você mora longe de sua família e não tem muitos amigos aqui. Saiba, então, que pode contar comigo.” Por incrível que pareça, no dia seguinte eu precisei de dinheiro emprestado, pois havia feito uma compra a prazo e a pessoa foi desonesta, depositando todos os cheques de uma vez. Aí meu cheque de pagamento do aluguel voltou. Procurei o Ivan e contei isso pra ele que, na mesma hora, avisou a esposa. Fui até a casa deles e peguei o cheque com ela. Paguei o Ivan no mês seguinte, muito agradecido, e aprendi que a melhor coisa a fazer era ajudar os outros do jeito que ele havia me ajudado.

  2. É isso aí, Zé. O mundo precisa de bons exemplos como esse. Somente com a prática da gentileza, poderemos esperar por uma sociedade mais humana e solidária. Desde que eu era adolescente, eu percebi que o mundo precisa de mudanças. Mas, uma grande mudança só virá a partir das pequenas mudanças que cada um de nós for capaz de implementar em sua vida cotidiana. Você e sua família são grandes exemplos de gentileza que eu admiro muito e eu tenho orgulho de conhecê-los. Um grande abraço.

  3. Janine disse:

    São histórias como essa que instilam esperança. Trazem sentido a vida, pelo menos para mim. Adoro ouvir e saber que diante de uma sociedade extremamente individualista ainda há esse tipo de solidariedade, gentileza.
    A gentileza com certeza é um atributo de extrema importância em minha vida, sendo indispensável. Acho até que poderia colocá-la na categoria de necessária. Não sei se suportaria conviver com pessoas que não tivessem tal atributo. Acho que o “meu mundo” seria insuportável e sem sentido algum. Mas cada um a coloca na categoria que bem quer, na qual faz sentido em sua vida.
    Excelente texto Sergio!

    • Sergio Lopes disse:

      Janine, quando as pessoas não são movidas pela gentileza, elas se falam aos gritos, ou se matam umas às outras, como foi a história do casal de Alphaville. Por outro lado, quando a gentileza inspira nossas ações, nossos ambientes são sempre mais acolhedores, seja em casa, no trabalho, no ônibus, nas ruas… Você não concorda?

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