O concreto já rachou

Brasília tinha 25 anos quando a Plebe Rude, banda de rock nascida naquela cidade, lançou seu primeiro disco com o nome de onde tirei o título deste artigo. Os jovens compositores, liderados por Phillipe Seabra, perceberam que as obras públicas da jovem cidade já apresentavam sinais de fadiga, com o concreto, literalmente, rachando. Isso era, para o grupo, uma metáfora para a decadência da utopia forjada que era Brasília.

Vinte e oito anos depois do lançamento desse disco antológico, os sinais de fadiga só fizeram aumentar, não apenas no concreto armado, mas nas principais instituições que compõem a chamada “jovem democracia brasileira”. A corrupção está presente em todas as esferas. Caciques que estiveram caminhando lado a lado com os militares durante a ditadura ainda estão no poder, posando de democratas. Os partidos políticos apresentam um esgotamento de suas propostas ideológicas e não conseguem mais falar aos corações dos brasileiros.

Cansados de promessas, indignados com a violência e a falta de segurança, com o caos na saúde e na educação, com a corrupção, com desfaçatez dos políticos ao defenderem seus próprios interesses, com o arrocho salarial e a ameaça de volta da inflação, milhares de pessoas têm ido às ruas de todo o País, em manifestações que as autoridades ainda não foram capazes de compreender e interpretar corretamente.

Não se trata de um movimento liderado por partidos como foi a campanha pelas “Diretas já”, em 1984, nem pelo movimento sindical, como as greves ocorridas no final da década de 1970, ou a luta pela anistia. Também não é uma mobilização provocada por entidades estudantis ou grupos de esquerda ou de direita. Não é uma marcha religiosa convocada por nenhuma igreja. “Está difícil entender, no dizer do ministro Gilberto Carvalho da Secretaria Geral da Presidência da República.[1] Trata-se, portanto, de um movimento espontâneo, uma nova onda.

Certamente que, assim como o Governo, os líderes dos partidos e políticos e movimentos organizados, também, estão confusos e perplexos diante da grande mobilização que se viu nos últimos dias em vários Estados, simultaneamente, assim como no exterior.

Fenômenos históricos, como esse, levam tempo para serem corretamente compreendidos e situados no contexto. Assim, muitos cientistas políticos, sociólogos e historiadores têm sido cautelosos nas análises e nas explicações. É claro que, não sendo capaz de compreender o que está ocorrendo, o Governo, sempre governo, assim como nos tempos da ditadura, vem tratando o fenômeno como caso de polícia.

Neste momento, enquanto escrevo, vejo a Rede Globo fazer algo que, habitualmente, não faz: interromper sua programação para transmitir, ao vivo, as imagens da manifestação que ocorre em todos o País, não apenas nas capitais, mas, inclusive em cidades do interior.

O comércio de lojas de rua, shopping centers, repartições públicas dos três poderes, empresas de modo geral dispensaram seus funcionários mais cedo para que pudessem chegar em casa em segurança, mas também para participar das manifestações, chamadas pela mídia de “Ação nacional pela democracia”. A Folha de São Paulo estampa em sua capa de 20/06/2013: “Protestos de rua derrubam tarifas”.

Há uma mudança em curso e o que podemos dizer disso tudo é: “O concreto já rachou!!”.

Como vão ser as eleições em 2014?

 


[1] ‘Está difícil de entender’, diz Gilberto Carvalho sobre manifestações. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/06/esta-dificil-de-entender-diz-gilberto-carvalho-sobre-manifestacoes.html.

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2 respostas para O concreto já rachou

  1. Elseana de Paula disse:

    Análise sábia de quem já segurou bandeira partidária decepcionante, hoje.

  2. Celio R. Lopes disse:

    Esperamos que o proximo capitulo de nossa historia possa relatar como mudamos o curso dos acontecimentos atraves dos protestos organizados pelo cidadao comum e nao pelas organizacoes falidas e comprometidas com o poder.

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