Rapaziada x pelegada?

Impossível não fazer comparação entre a “greve geral” promovida pelas centrais sindicais brasileiras, neste último dia 11/07/2013, e as manifestações ocorridas no mês de junho. Essa é a tônica da maioria das análises que pudemos ler nos principais jornais do País no dia seguinte ao evento. Algumas avaliações são até bem pertinentes, porém, outras se mostraram um pouco exageradas, seja para aprovar ou desaprovar o “dia nacional de luta”.

A primeira coisa que eu percebi foi uma certa má vontade generalizada da mídia em fazer a cobertura do evento sindical. É verdade que demorou um pouco para os meios de comunicação acordarem para o que estava acontecendo junho, também. Somente com o crescimento das mobilizações que chegaram a atingir 1 milhão de pessoas nas ruas, a imprensa reconheceu que havia algo diferente acontecendo.

Com relação às mobilizações sindicais, é preciso lembrar que nunca tiveram a simpatia de jornais ou canais de TV. Então, a pouca atenção dada pela mídia neste dia 11 não chega a ser novidade. Basta lembrar que a participação dos mass media foi decisiva em muitas eleições passadas. Quando Lula, um ex-sindicalista, chegou à presidência e isso era algo que não podia ser ignorado, uma trégua foi estabelecida com os movimentos de trabalhadores, porque isso era conveniente tanto para a mídia quanto para o PT e seus aliados.

Mas, o ranço contra o sindicalismo não foi apagado e pode ser percebido na leitura de várias colunas de comentários políticos que trataram da paralisação nacional deste 11 de julho.

Os sindicatos têm importância histórica e não é possível pensar a cultura pós-Revolução Industrial sem a sua presença. Eles ajudaram a construir um patamar de relações importante para uma sociedade baseada no trabalho humano. O trabalho é aquilo que agrega valor a todas as coisas que são compradas e vendidas. Somente na ficção é possível conceber um mundo sem trabalho; um mundo em que as máquinas adquirem autonomia e estabelecem uma guerra contra os seres humanos, na perspectiva de dominá-los ou, até mesmo, eliminá-los. Os sindicatos surgiram como organização da resistência humana contra esse tipo de dominação.

É verdade que o movimento sindical brasileiro experimentou uma certa acomodação ao poder com a chegada do PT à presidência. Para a jornalista Dora Kramer, a ‘greve geral’ foi “uma tentativa de recuperar um território perdido – ou melhor, abandonado – desde que os chamados movimentos sociais organizados resolveram trocar as demandas daqueles que representavam por uma parceria (mais das vezes remunerada) com o governo que supostamente detinha o monopólio de todos os anseios”[1]

Embora ainda haja no movimento sindical entidades e sindicalistas que mantêm sua postura crítica em relação ao já conquistado pelos trabalhadores e o que ainda há para conquistar, não se pode negar que o fisiologismo tem sido a regra nas centrais sindicais durante os últimos governos.

Com o aproximar das eleições, em 2014, os diversos grupos começam a querer marcar as suas posições. Tanto que se verificou uma certa tensão no evento do dia 11, causada pela disposição da Força Sindical em criticar o governo Dilma e um esforço da CUT em sentido contrário, justamente por estar mais alinhada ao PT.

Portanto, não é sem razão que vários comentaristas queiram desacreditar o esforço dos sindicalistas em seu ‘dia nacional de lutas’. O jornalista Josias de Souza, da Folha de São Paulo fez um ‘esquema’ de comparação entre as manifestações de junho e a de 11/07, com um artigo intitulado ‘As diferenças: a rapaziada é #, a pelegada é $[2], em uma referência a matéria veiculada pela Folha, em que diversos manifestantes teriam declarado estar no ato apenas por ter recebido dinheiro de uma central sindical para carregar bandeiras e vestir camisetas.

Como já mencionei anteriormente, as centrais sindicais, assim como os políticos, estão vindo a reboque dos movimentos de junho que apontaram para uma crise de representação. A ‘greve’ convocada para o último dia 11 foi, sim, uma tentativa de recuperar o terreno, como afirmou literalmente o presidente da Força Sindical no Espírito Santo ao dizer: “Optamos por deixar a população em casa e trazer só os representantes legítimos às ruas. Não adiantava ter uma quantidade grande de pessoas e perder o controle do ato. Por isso, optamos por parar os ônibus. Não nos preocupamos com quantidade, mas com qualidade”.[3]

Nota-se, nessa fala, a nítida pretensão de deixar de fora a ‘rapaziada’, porque os ‘legítimos representantes’ é que devem ir para as ruas.

Verificou-se que, em algumas grandes cidades, ficou um clima de feriado, já que o volume de pessoas se manifestando era bem menor do que nas passeatas de junho. Em Vitória, a estratégia de parar 100% da frota de ônibus e fechar os principais acessos à capital, impediu a locomoção das pessoas e a cidade praticamente parou. Mas, isso não deu ares de protesto ao ‘dia de luta’.

O que consegui perceber, em várias conversas com diferentes pessoas, é que a população não percebe a diferença de fundo entre os movimentos espontâneos que ocorreram no mês passado e este ‘dia nacional’ das centrais. É fato que muita gente não foi trabalhar porque não tinha transporte e, como foi sugerido por alguns comentaristas, houve uma certa colaboração de muitos patrões para que a paralisação ocorresse. Mas, o povo, de modo geral, vê a ‘greve geral’ como uma continuidade dos protestos anteriores.

Uma coisa que pouca gente está percebendo é que cresce entre as pessoas a sensação de que o poder está em suas mãos. Quando elas se mobilizam pelas mídias eletrônicas como o Twitter e o Facebook, elas não estão sendo mediadas por ninguém: nem sindicatos, nem partidos, nem ONGs, nem ninguém. São elas mesmas se mobilizando e fazendo pressão sobre os seus representantes. E isso não é pouca coisa. É claro que os governantes e os patrões preferem os movimentos de sindicatos porque, nestes, está bem claro quem organiza e quem comanda, então, é mais fácil ‘negociar’. Mas, em um movimento de massa em que ninguém assume a liderança direta e as reivindicações são claras e muitas, não resta ao Poder Público alternativa senão tomar providências para que as coisas mudem. Não existe espaço para barganhas.

O fenômeno das redes é novo e está em gestação. Ele está definindo os parâmetros para uma nova revolução que, como diz Elizabeth Lorenzotti, no Observatório da Imprensa, será ‘pos-televisionada’.[4]

Por mais que muitos torçam o nariz para ela, a sociedade-rede está aí e já é uma realidade.


[1] KRAMER, Dora. Atrás do fio elétrico. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,atras-do-fio-eletrico-,1052584,0.htm.

[2] SOUZA, Josias de: As diferenças: a rapaziada é #, a pelegada é $. Disponível em: http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/07/11/as-diferencas-a-rapaziada-e-a-pelegada-e/.

[3] Greve deixa 700 mil sem ônibus e passeata atrai milhares a Vitória. Disponível em: http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2013/07/greve-deixa-700-mil-sem-onibus-e-passeata-atrai-milhares-vitoria.html.

[4] LORENZOTTI, Elizabeth. A revolução será pós-televisionada. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_revolucao_sera_pos_televisionada.

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