A PROPÓSITO DO LINCHAMENTO NO GUARUJÁ

 

por Sérgio Lopes

 

Fabiane Maria de Jesus: esse é o nome da mulher de 33 anos linchada por populares no Guarujá, no último dia 3, após ser confundida com suposta acusada de sequestro de crianças a serem utilizadas em rituais de magia negra.

Segundo o que vem sendo apurado nas investigações, nenhuma das pessoas que participaram do linchamento conhecia, de fato, a vítima. Nenhuma delas tinha conhecimento inequívoco sobre a existência real de uma mulher que sequestrava crianças para práticas de bruxaria. Não havia sequer uma imagem que identificasse a verdadeira acusada de um tal fato que era compartilhado como verdadeiro nas redes sociais. Apesar disso, a pobre mulher foi tomada como culpada de fato incerto e trucidada sem piedade por dezenas de pessoas.

Esse episódio é muito triste, mas, infelizmente, é apenas uma ilustração das possíveis consequências advindas da velocidade com que fatos e/ou boatos circulam entre as pessoas por meio das mídias sociais.

É verdade que o estado atual da tecnologia representou uma revolução área das telecomunicações, não apenas porque aproximou mais as pessoas de diferentes partes do mundo (e até fora dele), mas, também, porque possibilitou a qualquer pessoa portando um smartphone com câmera e acesso à Internet produzir notícias e fazê-las circular em tempo real pela rede mundial de computadores. Se isso é uma democratização no acesso aos meios de produção e veiculação de informações, por outro lado, isso possibilita, também, a veiculação de boatos e mentiras sobre quem quer que seja.

É impressionante como as pessoas compartilham coisas nas redes sociais sem, ao menos, analisá-las criticamente e ponderar sobre seu possível impacto na vida das pessoas. Há poucos dias, uma colega minha do trabalho compartilhou um post do Facebook que mostrava a foto de um homem que, supostamente, passava-se por um agente do IBGE, portando crachá e tudo, que, na verdade, aproveitava-se da boa-fé das pessoas ao abrir suas portas para assaltá-las.

Isso foi antes do acontecido no Garujá e a primeira coisa que me veio na cabeça foi a seguinte: “eu não conheço esse sujeito, nem sei se esse fato é verdadeiro. Se eu compartilhar isso, posso estar contribuindo para a veiculação de uma mentira e o cara pode acabar sendo vítima de um linchamento sem estar devendo nada a ninguém”. Pois, poucos dias depois, acontece a morte da Fabiane.

Compartilhar posts acriticamente pode parecer inofensivo, enquanto se trata de piadinhas inocentes, mensagens religiosas ou de auto-ajuda, mas quando é algo que pode atingir a integridade moral e até física das pessoas, não é uma coisa à toa. Eu penso que todos deveríamos ser mais críticos antes de compartilhar qualquer informação nas redes sociais. Dizem que Confúcio costumava dizer que, antes de falarmos qualquer coisa, deveríamos passá-la pelas três peneiras: a da verdade, a da necessidade e a da bondade. O que eu vou dizer é verdadeiro? É necessário? É bom? Se passar por esses filtros, então, podemos dizer.

Ora, participar de uma rede que espalha que alguém supostamente cometeu um crime e até mostra essa pessoa é algo que, sem sombra de dúvida, deveria passar pelo teste da peneiras antes de se multiplicar pelo mundo afora. No caso da dona-de-casa do Guarujá, a primeira peneira já deveria ter sido suficiente para fazer as pessoas pensarem várias vezes antes de apontá-la como culpada de qualquer coisa. Ninguém sabia se o fato alegado era verdadeiro, se existia, de fato, uma mulher sequestrando crianças para a prática de magia negra. E ninguém sabia se essa mulher era Fabiane. Tudo o que tinham era apenas um retrato falado!! Um retrato falado pode identificar muitas pessoas, mas, nunca com certeza absoluta, a ponto de converter isso em verdade.

De resto, as duas outras peneiras seriam suficientes para eliminar qualquer iniciativa de fazer justiça com as próprias mãos, ainda que a mulher em questão fosse realmente culpada de alguma coisa. Eu não considero que seja bom e muito menos necessário agredir ou matar alguém sob qualquer pretexto. Nenhum ser humano merece o tratamento que foi dispensado a essa mulher.

O antropólogo Roberto DaMatta faz uma análise sociológica e política desse fato[1] que merece uma reflexão profunda por todos os que, como eu, querem pensar e contribuir para que o mundo seja mais tolerante e mais pacífico, além de mais justo e acolhedor para todos.

Neste Dia das Mães, rendo a minha homenagem a todas as mães, na pessoa de Fabiane Maria de Jesus, ela também mãe e portadora das esperanças e frustrações de todos nós, agora mártir da injustiça que aprofunda suas raízes nos nossos corações!

 

 

[1] http://globotv.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/t/todos-os-videos/v/morte-por-espancamento-e-tema-da-cronica-do-antropologo-roberto-damatta/3338765/

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