A vida em primeiro lugar

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Sérgio Lopes

A execução do brasileiro Marco Archer na Indonésia nos incomodou a todos. Em primeiro lugar porque é difícil admitir que alguém, mesmo que seja o Estado, tenha o direito de tirar uma vida, sob qualquer pretexto, com legitimidade. Sou contra a pena de morte, quero dizer de antemão. Acredito que ninguém tenha o direito de tirar a vida de outra pessoa. Não há como legitimar isso dentro da nossa cultura, a partir dos valores que cremos e que professamos. Sejam eles de cunho religioso, filosófico ou científicos.

Essa execução se torna emblemática porque, além de ser um compatriota nosso, desnuda as muitas contradições que vivemos no Brasil, um País em que a violência se tornou parte do cotidiano da maioria de nós. E já não há mais diferença entre grandes centros e interior. A violência se espalhou.

O espetáculo da corrupção a que temos assistido nos últimos tempos nos faz pensar que a segurança não melhora porque o dinheiro público está indo pelo ralo (ou melhor dizendo, para o bolso dos ladrões encastelados no poder).

Quando houve, aqui, um plebiscito sobre o desarmamento, a questão foi instrumentalizada pelos grupos partidários que fizeram do problema um argumento para suas demagogias de sempre, iludindo o eleitor e induzindo-o ao erro de acreditar que estaria mais seguro com o porte de armas liberado. Eu só considero o seguinte: uma arma serve apenas para matar, ou para machucar alguém. Eu não quero matar nem machucar ninguém, então, eu não preciso de arma. E creio que esse deveria ser o pensamento das pessoas. Não queremos nem devemos matar ninguém, então, vamos abolir as armas. Quem estiver armado só pode estar mal intencionado.

Agora, a questão do tráfico de drogas é um outro problema. Recentemente, quando o Uruguai liberou o uso da maconha, houve muita discussão e alguém chegou a ventilar a idéia de que o tráfico ilegal de drogas representava uma guerra que estava perdida pela sociedade e pelo Estado. Sabemos que, no Rio, por exemplo, a pacificação das favelas não representou do comércio de drogas ilícitas. Os noticiáios estão aí e não nos deixam ficarmos iludidos.

Agora, pensemos: qual a expectativa de alguém que vai para um país em que o tráfico de drogas é um crime punível com a pena de morte fazer exatamente isso, ou seja, levar drogas ilegalmente para serem distribuídas nesse país? Ele estava apostando na impunidade ou na sorte de não ser pego. Ele arriscou a própria vida e perdeu.

Não estou apoiando a Indonésia em sua decisão de executar traficantes, mas estou apenas constatando que o nosso amigo Marco Archer colheu o que ele plantou.

Nesse mesmo sentido, poderíamos refletir sobre outro evento ocorrido nos últimos dias e que chocou o mundo: o atentado contra os cartunistas da revista Charlie Hebdo. Eu sou contra o terrorismo, mas sabemos que os terroristas não seguem nenhuma lógica ou argumento que possamos usar para condená-los. Tenho certeza de que eles não estão nem um pouco sensibilizados com a comoção que se seguiu ao atentado. Pelo contrário, eles devem estar satisfeitos com o resultado. Atingiram seus objetivos. Agora, pensemos, o que posso esperar quando eu cutuco uma onça com vara curta? Por que eu deveria ou poderia provocar os terroristas naquilo que eles mais prezam: os princípios de sua religião fundamentalista?

Eu lamento a morte dessas pessoas: Marco Archer e os cartunistas do Charlie Hebdo. Condeno a pena de morte, assim como o terrorismo. Mas, precisamos usar de racionalidade para não provocarmos as reações irracionais dos fundamentalistas, porque eles estão prontos para dar o troco de que dispõem.

Acho que é hora de nós brasileiros pensarmos que os valores de uma sociedade justa, solidária e pacífica precisam ser reforçados em nossas ações cotidianas: no trânsito, na convivência familiar, nos círculos sociais, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol e em todos os âmbitos da nossa cultura. Precisamos mostrar ao mundo que o brasileiro tem a estatura da honestidade, da firmeza de caráter, da bondade e da felicidade (por que não?).

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