Essência e aparência (parte 1)

por Sérgio Lopes

Esta semana, alguns colegas de trabalho e eu protagonizamos uma pequena discussão com um cliente que era atendido por um de nós. Tal cliente estava fazendo uma manifestação exaltada contra o atual governo federal, criticando todas os escândalos de corrupção e desmandos a que temos assistido diariamente nos meios de comunicação. Até aí, tudo bem. Quem não está indignado com tudo isso: a volta da inflação, o aumento dos impostos, o crescimento na taxa de desemprego, a redução de benefícios sociais, casados com o aumento das mordomias nos Três Poderes? A discussão tomou um outro rumo quando o cidadão reivindicou o retorno do regime militar como solução para todas essas mazelas. Como já manifestei aqui e em outros momentos, não estou mais alinhado com nenhuma ideologia partidária, então, se a pessoa está falando mal do governo, não me afeta. Certas críticas até têm o meu apoio ou as minhas ressalvas, conforme a conversa. O que eu não admito é a miopia, a irracionalidade com que as pessoas enxergam o que está acontecendo, fechando os olhos para algumas coisas e achando que todo o problema está apenas em um aspecto dos acontecimentos e, consequentemente, a solução também é simples e direta. No caso dele, a volta da ditadura militar representava a panaceia de que precisamos para ser um País de primeira linha. Não posso ficar calado diante de um absurdo como esse. O meu colega que o estava atendendo e dialogava com ele, tentou colocar alguns argumentos baseados em sua simpatia com a esquerda e com o PT, mas, evidentemente, quando se tem um interlocutor que não quer enxergar outra coisa, não há argumento que persista. Eu só comecei a ponderar com ele que a corrupção não era novidade no Brasil e que ela existiu tanto ou em maior grau durante o regime militar, com a diferença de que ela era oculta pela repressão. As mesmas empreiteiras que estão no centro do escândalo com a Petrobras são as mesmas que fazem obras para o governo central desde a época de Juscelino Kubitschek. Será que foi só agora, no governo do PT, que elas começaram a pender para o lado da corrupção, depois de mais de 40 anos? Só não vê quem não quer. E mais: eu disse a ele que achava que o atraso no Brasil era responsabilidade dos militares. O camarada ficou ainda mais irritado quando um outro colega entrou na conversa apenas para avacalhar, provocando-o dizendo que as coisas iriam se ajeitar com a volta de Lula na Presidência nas próximas eleições. O cara “subiu nas tamancas”. Saiu de lá cuspindo marimbondo. O governo militar, no Brasil, foi pródigo em propagar mentiras e mais mentiras sobre quase tudo, não só no plano político, sequestrando, torturando, matando e exilando brasileiros que queriam uma política transparente. Muitos políticos que, hoje, estão mandando no Brasil, estavam no poder, já na época dos militares. É o caso do sr. Sarney, Renan Calheiros, muitos caciques do PMDB e do DEM (que já nem sei se se chama DEM, ainda, depois de ter sido ARENA, PFL, entre outras denominações). Os caras nunca saíram do poder. Pois, então, se é essa mesma gente que está comandando a política no Brasil há décadas, existe alguma coisa aí que não está sendo percebida pelo eleitorado e pelo brasileiro comum, que fica acreditando em soluções do tipo “retorno do regime militar”. Se dermos uma olhada para a história, veremos que os países que têm histórico de regimes militares, experimentaram e experimentam um enorme atraso no desenvolvimento econômico e social. Vejam todos os países da América Latina. Agora, os países que, nos últimos 200 ou 300 anos, não tiveram ditaduras, estão em melhor situação, embora tenham outros problemas de natureza distinta. A verdade, é que os governos, de modo geral, se sustentam por meio de aparências. Vendem imagens daquilo que não são e apregoam o que não fazem como se tivessem feito. Basta prestar atenção nas propagandas oficiais que anunciam as obras que nunca terminam, os benefícios que não ajudam de verdade, as “maravilhas” proporcionadas por esta ou aquela gestão, quando, de fato, os contrastes ainda são uma forte marca na estrutura sócio-econômica brasileira. Na essência, o povo continua pagando o preço das mordomias, dos desvios de verbas, da roubalheira toda. “Vamos apertar o cinto, mais uma vez. Aumentar impostos, cortar investimentos em saúde, educação, segurança…” A tensão entre essência e aparência é um tema antigo na filosofia. A alegoria da caverna, de Platão, é uma das reflexões mais significativas sobre o modo distorcido como as pessoas enxergam a realidade e também como se recusam a ver o que está por trás das aparências. Nunca achei tão relevante pensar sobre isso como agora. A cultura contemporânea está marcada pelo predomínio da imagem e da aparência sobre o conteúdo, a essência, aquilo que realmente faz sentido. É claro que discutir o que é essência e aparência é tarefa para doutores. Mas, com certeza, qualquer um de nós tem uma noção do que isso significa. Trata-se de ser crítico em relação ao que vemos e ouvimos e ter uma postura ativa na realidade, colaborando para uma transformação efetiva da realidade e não um mascaramento como o que sempre fizeram os militares e que os governos posteriores aprenderam direitinho como fazer. O que deve prevalecer é a realização e não a publicidade. No filme Matrix, vemos personagens que querem manter as aparências do mundo virtual e outros que querem libertar as pessoas para a realidade nua e crua: estão sendo exploradas, sugadas e escravizadas por um regime que se sustenta na ilusão. De que lado ficaremos?

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