Essência e aparência (parte 2)

por Sérgio Lopes

Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentadas, de modo que não podem se mexer nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que, ao longo dessa estrada, está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas (Sócrates em A República de Platão, Livro VII).

Há pouco tempo o comentarista Arnaldo Jabour lembrava, em um de seus comentários na Rádio CBN, que um dos principais motivos de revolta no Brasil Colônia, à época de Tiradentes, era o excessivo peso dos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa sobre a produção econômica tupiniquim, principalmente em relação à exploração do ouro das Minas Gerais. Pois bem, segundo o nosso comentarista, os 20% cobrados pelos portugueses, que foram chamados de “quinto dos infernos” (é daí que vem a expressão), agora, podem ser considerados modestos, diante dos quase 40% de carga tributária no Brasil atual. Conforme apurou o jornal Valor Econômico, em 2013, o peso dos tributos brasileiros foram quase o dobro da média de 21,3% em 20 países da América Latina, os quais foram alvo de um estudo feito por organismos internacionais. Chegamos, conforme o estudo a 35,7% sobre o PIB, cobrados na forma de impostos.[i]

Jabour questionava porque que, agora, quando estamos com o peso de quase 40% no lombo, não está havendo nenhuma revolta como houve na época da Revolta de Vila Rica ou da Inconfidência Mineira?

Acho que estamos vivendo como os homens da caverna citados por Sócrates em A República de Platão. Estamos acostumados a sofrer a imposição do poder central em nos cobrar cada vez mais impostos. Desde que nascemos as coisas são assim e nunca vimos nada diferente disso, tal como os prisioneiros da alegoria do ateniense.

Os últimos anos da política e da economia nacional foram uma bela mostra de como estamos vivendo no reino das aparências. O governo mascarou o quanto pôde os graves problemas de gestão da ordem econômica, assim como tratou os escândalos de corrupção como se fossem apenas “intriga da oposição”. Passadas as eleições, eis que cai sobre nossas cabeças a bomba reveladora do enorme rombo que agora temos que cobrir com mais aumento de impostos.

A atividade econômica está encolhendo, o desemprego aumentando, a inflação está de volta, os impostos estão crescendo ainda mais… Onde vamos parar? O que fazer para estancar essa sangria?

Infelizmente, os partidos políticos brasileiros, com suas lideranças egoístas e demagogas, mostraram que não são dignos de confiança, não são capazes de mudar o País. Mas, o pior de tudo isso é que nós, como os prisioneiros da caverna de Sócrates e Platão, não conseguimos enxergar para além das sombras que são projetadas em nossa frente tanto pelos políticos quanto pela mídia que, por sua vez, é conivente com tudo o que está aí, já que as empresas de comunicação nunca são isentas o suficiente para se posicionar em favor da população. Elas se posicionam, sim, de acordo com os interesses do lucro.

Nesse sentido, algumas vozes acabam ficando isoladas, como a do jornalista Ricardo Boechat que, no início desta semana, fazia uma crítica do espetáculo que se criou em torno da imagem da Presidente Dilma andando de bicicleta. Segundo ele, foi dito à imprensa que mostra-la pedalando a tornava mais humana, como se pedalar fosse algo incomum e, mais ainda, não pedalar tornava as pessoas uma monstruosidade. No fundo, o ato dela de andar de bicicleta seria mais uma manobra midiática para reforçar o predomínio das aparências sobre o que realmente importa no cenário político brasileiro.

[i] Brasil tem a maior carga tributária da América Latina, diz OCDE, disponível em: http://www.valor.com.br/brasil/3946654/brasil-tem-maior-carga-tributaria-da-america-latina-diz-ocde.

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