Essência e aparência (parte 3)

Sérgio Lopes

Quando iniciei este blog, a pergunta fundamental sobre a qual refleti era: de que precisamos para viver? Talvez, neste momento, pudéssemos fazer a mesma pergunta de outro modo: o que é essencial para nós? Muitos podem considerar essa reflexão um tanto supérflua e sem propósito, uma vez que o seu caráter filosófico não resolve questões práticas do nosso cotidiano. Porém, quanto mais eu penso sobre o momento atual em que vivemos, mais eu sinto necessidade de buscar uma resposta a essa pergunta.

Uma das minhas motivações para escrever aqui era a minha insatisfação com o festival de más notícias que a mídia nos serve diariamente: corrupção, violência, catástrofes, todo tipo de mazelas que dominam os noticiários e parece, realmente, que quanto pior, melhor. E, ao que tudo indica, os jornalistas responsáveis pelas pautas acham que não há nada a fazer a não ser dar más notícias todos os dias. Parece que não há nada de bom acontecendo. Lembro-me de ter participado de uma pequena polêmica provocada por um artigo escrito no site Observatório da Imprensa, cujo autor eu já não me lembro. Para quem não conhece, o referido site é uma espécie de revista eletrônica que se dedica a analisar criticamente o comportamento da mídia em relação aos assuntos mais frequentes nas notícias veiculadas. Na minha opinião, presta um grande serviço a quem quer ver o noticiário com olhos críticos porque ajuda a enxergar nas entrelinhas das manchetes.

A tal polêmica consistia em que o autor do artigo fazia uma crítica ao tom acentuadamente pessimista dos meios de comunicação na elaboração de suas pautas diárias, dando sempre maior ênfase aos aspectos negativos dos fatos. Eis que um jornalista do Estadão, do qual também não lembro o nome, fez um comentário ao artigo dizendo que “não existe pauta negativa, existe apenas pauta”. Eu não me contive e entrei na conversa e chegamos a trocar alguns argumentos pelo Twitter, em que eu dizia que “a pauta”, não era um ente autônomo, mas era um “produto” elaborado a partir de escolhas e de uma visão de mundo particular do jornalista que a criou. É claro que essa discussão não resultou em nada porque nem ele me convenceu e nem eu a ele.

Citei o fato para dizer que parece que os redatores e editores dos principais jornais do País acreditam que o tom negativo dos noticiários é algo que se impõe de maneira categórica, sem que eles tenham margem de decisão para direcionar os esforços das reportagens para descobrir coisas boas e construtivas que também acontecem neste mundo.

Bem, o que quero dizer com isso é que os noticiários são também um jogo de aparências travestido de realidade. Querem nos oferecer matérias diariamente que são vendidas como se fossem simples descrição de fatos quando são, na realidade, interpretações muitas vezes enviesadas do que acontece pelo mundo afora.

Eu devia ter uns 13 anos, mais ou menos, quando eu comecei a me interessar por ler jornais. Como eu não tinha dinheiro para compra-los todos os dias, eu lia jornais velhos. Minha mãe trabalhava em um lugar que tinha uma biblioteca que descartava, toda segunda-feira, os jornais da semana anterior para receber os da semana corrente. Eu pedia a ela para trazer os jornais que iriam para o lixo para eu ler. E eu gostava de ler justamente a parte política. Mais tarde, em um curso de formação para lideranças jovens, aprendi com um professor a fazer comparações entre jornais diferentes ou entre notícias dadas em canais diferentes, para descobrir como elas mudavam o enfoque, a ênfase, a interpretação, dependendo de qual empresa de comunicação estava veiculando a matéria. Não creio que eles ensinem isso nas faculdades de jornalismo. Pelo menos eu nunca ouvi falar.

Eu comecei o blog em maio de 2013 e a tônica das notícias não mudou muito. Na verdade, as tragédias de hoje são diferentes das tragédias daquele ano, mas são tragédias. A corrupção revelou novos atores. A violência fez novas vítimas. Mas, onde estão os bons acontecimentos, os exemplos de solidariedade, de convivência pacífica, de justiça social. É claro que eles existem, mas o espaço que ocupam na mídia é ínfimo perto das más notícias. As empresas de comunicação acreditam que precisamos muito mais de más notícias do que de boas notícias.

Só mesmo o Papa Francisco tem merecido destaque na mídia com o seu comportamento humilde, dedicado a construir a paz e a concórdia, espalhando solidariedade e demonstrando a sua vocação para o amor e a bondade. Ele não é o único, mas, talvez, pela posição que ocupa, os meios de comunicação considerem que ele seja importante demais para não ser mostrado.

A frequência com que escrevo neste espaço não tem sido regular, em razão da minha rotina de trabalho e outros afazeres. Nem sempre sobra tempo para escrever, mesmo quando tenho alguma idéia que considero boa. Mas, nos últimos dias, tenho percebido que várias pessoas têm curtido a minha página, algumas que eu nem conheço. Isso me faz concluir que o que escrevo tem algum sentido para alguém, o que me motiva a querer continuar a desenvolver aqui o meu pensamento.

Convido vocês, meus leitores, a refletir comigo: do que, realmente, precisamos para viver? O que é essencial para nós? Vamos decidir isso por nós mesmos ou vamos deixar que decidam por nós?

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