O direito de nascer

Abort2

 

Sérgio Lopes

Há poucos dias, tive uma discussão com meu filho de 17 anos, depois que vi no perfil dele no Facebook, que ele tinha alterado a foto do perfil dele, mesclando com uma espécie de capa que algumas pessoas estão criando para sobrepor as fotos como forma de demonstrar adesão a certas ideias ou campanhas. Como exemplo do que estou dizendo tem aquele degradê colorido, que sugere um arco íris, como forma de indicar que a pessoa defende os direitos LGBT. Trata-se de um apelo visual bem direto e objetivo. Quem vê a foto alterada com aquela sobreposição logo conclui que se trata de alguém que é ou defende as “minorias” discriminadas por sua orientação sexual.

Pois bem, eis que eu me surpreendi quando ele exibiu a sua foto de perfil com uma sobreposição em favor da legalização do aborto. Era uma foto dele com os dizeres mais ou menos assim: “Legalização do aborto: eu apóio” e ainda fazia referência ao dia 8 de março (dia da mulher).

Quando ele aderiu à campanha LGBT eu não falei nada, mas agora, eu me vi na obrigação de falar. Apesar de que eu praticamente falei sozinho e ele me retrucou muito pouco, mas eu não podia ficar quieto, vendo um garoto de 17 anos que ainda não tem o devido preparo para a vida se engajar em uma campanha tão problemática como essa, expressando uma opinião que eu sabia não ser a dele.

Eu só argumentei com ele que as pessoas mais sérias que discutem o assunto admitem a possibilidade do aborto em três situações que, embora discutíveis, podem até ser justificáveis de certo modo: gravidez resultante de estupro (porque não foi uma escolha da mulher), gestação com grave risco de vida para a mãe (pois trata-se de escolher por uma vida, já que não há garantias, inclusive, de que o bebê permaneça vivo enquanto a mãe morre e, por fim, não menos polêmica e problemática, quando se verifica má formação do feto, indicando que ele terá uma vida vegetativa (como ocorre, por exemplo, nos casos de anencefalia). Em nenhuma dessas hipóteses, a decisão é fácil. Eu nunca passei por isso, mas imagino que as pessoas que tiveram experiências relacionadas a essas circunstâncias devem ter sofrido e sofrem muito. Fora disso, quaisquer outras justificativas para se legalizar o aborto não são moralmente aceitáveis.

Meu filho me rebateu dizendo que o aborto já existe e quem tem dinheiro para pagar faz sem nenhum problema, mas aqueles que não têm dinheiro, sofrem em situações clandestinas de alto risco. Eu só respondi dizendo que precisamos pensar na seguinte questão: quem é que quer fazer um aborto?

Há uma longa discussão sobre se podemos considerar que um embrião recém formado é uma pessoa, se possui personalidade e, portanto, se poderia ser considerado portador de direitos a serem preservados juridicamente. Não vou entrar nessa discussão, porque há muitas contribuições relevantes a esse debate e quem quiser pode pesquisar que vai encontrar opiniões valiosas sobre o assunto. Mas, eu penso que, quando observamos o desenvolvimento da vida (seja humana ou não), entendemos que ela é um processo que tem o seu começo e o seu fim. Quem nunca observou uma semente germinando? Todos, certamente, já fizeram na escola aquela experiência de colocar um caroço de feijão sobre um algodão molhado e admirar o que acontece com o passar dos dias. É a vida florescendo e se desenvolvendo. Ou seja, a vida estava, já, latente na semente que só precisou de ambiente adequado para desabrochar. Eu me lembro muito bem como a minha esposa se sentiu no momento da concepção de nossos dois filhos. Ela me relatou que tinha certeza de que tinha engravidado. Foi uma sensação diferente e maravilhosa, segundo ela. E isso foi, assim, em questão de algumas horas, após a nossa relação. E ela não estava errada. Ela, de fato, tinha engravidado e sentia a vida já crescendo dentro dela. Nossos dois filhos foram desejados e feitos com muito carinho e era verdade o que ela estava sentindo. Como dizer, então, que ali não tinha vida. Que o que estava dentro dela não era nada, que não tinha direitos e que poderia ser descartado? Essa foi a pergunta que lancei ao meu filho.

Quando se usa a expressão legalização do aborto, para mim, soa como se fosse mais uma opção que as pessoas teriam para evitar ter filhos. Que o aborto seria aceito indiscriminadamente. E foi isso mesmo que meu filho disse. Ele apoiava porque acreditava no direito de as pessoas escolherem não ter filhos. Em resposta, eu disse que para não ter filhos, havia muitas opções à disposição da pessoa, a começar pela abstinência sexual. Mas, poderiam, caso quisessem praticar sexo sem restrições, utilizar métodos contraceptivos já existentes: preservativos, DIU, pílula anticoncepcional etc., além de poderem apelar para uma esterilização cirúrgica, tanto masculina quanto feminina. Tudo isso existe e é permitido por lei. Qualquer um pode fazer. Mas, dizer que matar uma vida em desenvolvimento é uma opção para quem não quer ter filhos é um absurdo extremo.

Veja bem que eu não estou, aqui, apelando para argumentos religiosos. Sabemos que o aborto não foi legalizado no Brasil (ainda, ao menos) por pressão de setores religiosos, tanto católicos como evangélicos. Apesar de o Estado brasileiro ser laico, certos valores religiosos ainda têm grande influência sobre certas decisões políticas.

Mas, essa discussão sobre o aborto é muito antiga. Os de mais idade vão se lembrar de uma novela que fez muito sucesso em 1964: O Direito de Nascer. Tratava-se da história de uma moça, filha de família aristocrática tradicional que mantinha um romance proibido com um rapaz e fica grávida. Inicialmente, o pai do bebê sugere um aborto, o que a mãe não aceita. Bem, o desenrolar da novela se dá em torno dessa discussão. A novela já teve várias versões no Brasil e em outros países latino-americanos e é baseada em uma radionovela cubana da década de 1940.

É um debate que está longe de ser encerrado e resolvido facilmente. Sabemos que muitos abortos são realizados clandestinamente no Brasil e em toda a parte. O que precisamos é de uma educação que forme pessoas conscientes e responsáveis e não indivíduos com a ideia deturpada de que a vida pode ser descartada como se fosse algo sem valor, em nome de uma liberdade sexual pervertida.

Eu não sei se o meu filho mudou de idéia, mas logo depois da nossa conversa, ele mudou a foto de exibição do Facebook. Eu espero ajudar, com este texto, outras pessoas a refletirem sobre o assunto e formarem sua opinião.

Eu, pela minha formação calcada em valores religiosos, acredito que a vida é um dom de Deus e que merece ser bem cuidada. Apesar de a humanidade não se cansar de produzir situações de degradação da vida, temos que entender que esse é o bem mais precioso que temos. Sem ele, há o que?

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